Translate

terça-feira, 18 de março de 2014

(Conto) Morte Demoníaca

Morte Demoníaca

                Josh abriu os olhos de repente: Um forte ruído havia ecoado sobre aquele pequeno e abafado quarto de madeira, dentro da velha cabana perdida no meio da floresta de Black Hills.
                Seus olhos enxergavam o teto mofado, prestes a despencar, enquanto sua mão esquerda vasculhava aquilo que deveria estar ao seu lado, cobrindo a outra metade da cama.
                - Rose – ele sussurrou, enquanto tentava tocar em seu corpo. Não queria acordá-la, mas precisava ter a certeza de que ela estaria ali. Então, lentamente, ele girou sua cabeça noventa graus para a esquerda:
                Rose havia sumido.
                Incrédulo do que estava presenciando, Josh inclinou seu corpo para cima e observou a luminosidade afora através da janela fechada por grades de ferro: Ainda era noite, o que o deixou completamente intrigado.
                - Rose! – agora ele exclamou com firmeza. Rapidamente, pensou nas possibilidades dela ter se levantado para fazer suas necessidades, beber um copo d’água, ou escovar os dentes. Mas ele estava claramente certo de que sua namorada não teria coragem de sair da cama e caminhar sozinha em direção ao banheiro. Ele a conhecia bem. Muito bem.
                De repente, uma leve e estranha brisa soprou ao redor do quarto. Ao mesmo tempo, o som de papel fino ecoou aos ouvidos de Josh. Ao inclinar sua cabeça para o chão, deparou-se com um velho livro aberto, cujas folhas dançavam da direita para a esquerda através do vento.
                - Mas que porra é essa? – ele questionou em voz alta. Lembrou-se rapidamente daquele livro. Porém, não se recordava de tê-lo trazido até o quarto. Antes de dormir, o deixara em cima da mesa, na cozinha.
                Seus olhos encararam aquele livro. As folhas trocavam de página, uma a uma, movida por uma força além de sua compreensão. Movida por algo, alguém...
                O coração de Josh começou a palpitar fortemente. O frio em seu estômago revelava a insegurança, a desconfiança e o sentimento de medo que estava sentindo ao olhar para aquele objeto jogado no chão. Ele não o havia lido, mas lembrou-se da capa que estampava através de uma tinta vermelha, fresca... :
“ Invoque”
                Outro ruído ecoou aos seus ouvidos, desta vez vindo de fora do quarto.
                 Rose, ele pensou e então caminhou rapidamente em direção a saída do local: Deparou-se com a escura e pacata cozinha, onde havia apenas uma mesa de madeira com duas cadeiras. A única claridade era a do luar, o que não era o suficiente para iluminar a cabana. As velas expostas sobre a mesa estavam quase gastas. O medo começou a tomar conta de Josh.
                O homem girou sua cabeça para a esquerda, deparando-se com um estreito e assustador corredor. No final do mesmo, uma fraca luz refletia uma sombra que dançava lentamente sobre as paredes do lugar.
                Os passos de Josh eram lentos. O ranger da madeira sendo pisoteada podia ser ouvido, e cada vez mais a angustia daquele homem era evidente. Onde estaria sua namorada? Que sons eram aqueles? Por que o livro estava jogado em seu quarto?
                Eram mais e mais questões sem qualquer resposta concreta. E quanto mais ele se aproximava do destino, mais perguntas surgiam.
                O vento soprava incessante sobre a cabana. Os pés eram colocados um à frente do outro em passos curtos, cautelosos. Logo, Josh estava no corredor e conseguia avistar uma única porta semiaberta, de onde vinha a fraca luz.
                Ao aproximar-se do destino, Josh elevou sua mão direita em direção a fechadura: Ele a empurrou e, de repente, deparou-se com a silhueta de um corpo parado em pé, virado de frente para seus olhos. As vestes brancas cobriam aquela pessoa. Os cabelos morenos e longos do ser estavam umedecidos pelo suor. A vela em suas mãos estava prestes a se apagar.
                Josh suspirou. Seu coração quase saiu pela garganta. Aquela era Rose, sua namorada, Finalmente, havia aparecido, mesmo que naquele estado.
                - Rose, o que aconteceu? Por que acordou no meio da noite?
                A chama da vela, de repente, dançou som o soprar de uma frisa brisa. Rose estava calada, quieta, não tinha expressão no rosto.
                - Rose! – Josh exclamou, agora assustado pelo comportamento da garota.
                Por fim, ela respondeu em voz baixa, sussurrante:
                - Eu... Precisava... Eu Prec... Perdi o sono...
                - Você perdeu o sono? Mas como? Você estava morta de sono agora a pouco.
                - Tive pesadelos...
                Josh rapidamente lembrou-se do livro que haviam encontrado naquela cabana. Logo se deu conta de que o motivo para ela estar acordada fora aquele maldito artefato, cujas escritas a fizeram acordar.
                - Eu disse para você não ler aquele livro – ele resmungou – Eu não sei qual era o gênero daquela merda, mas com certeza não era coisa boa... Não sei por que meu pai resolveu deixar esse livro aqui, mas eu vou dar um fim nele. Agora, vamos para a cama. Devemos dormir. Amanhã voltaremos para a cidade.
                Josh elevou suas mãos em direção a Rose. Porém, ao tocá-la, avistou os olhos amarelados, tomados por um fúria, cujas veias circulavam nas pupilas.
                De repente, a vela se apagou.
                - Deus! – Josh gritou, pasmo. A escuridão caiu sobre aquele corredor – Rose, o que houve?!
                Silêncio.
                A respiração de Josh podia ser ouvida. Ele não queria falar, pois estava esperando pela reação de sua namorada. Porém, ela permanecia dentro daquele banheiro, quieta, silenciosa, estranha...
                Ruídos.
                Josh começou a ouvir novos ruídos, vindo daquele banheiro, da direção de Rose. Eram sons semelhantes a cortes, como se algo estivesse sendo raspado...
                Desesperado, o homem pegou o celular, acendeu a lanterna e mirou em direção à garota. No mesmo instante, deu passos para trás.
                O sangue escorria das pernas de Rose, tocando o chão.
                Os cortes continuavam.
                Os olhos de Josh cintilaram e ele se apoiou na parede do corredor, incrédulo do que estava presenciando:
                As afiadas navalhas eram cravadas sobre a vagina da garota, sendo repuxadas da direita para esquerda, de cima para baixo. O líquido ferroso escorria em profusão. O sorriso demoníaco estampado em Rose incomodava a quem olhasse: Um sorriso forçado, furioso e ao mesmo tempo alegre...
                - Jesus... – Josh sussurrou, levantando-se e correndo em direção a saída da cabana. Porém, ao tentar puxar a fechadura da porta da cozinha, percebeu que a mesma estava trancafiada. Ele tentou procurar as chaves em seu bolso, mas não as encontrou.
                Olhou para trás e avistou a silhueta demoníaca daquela que já não era mais a sua namorada caminhando lentamente em sua direção.
                - Volte, amor. VAMOS TRANSAR! – a aberração disse, agora com uma voz grave e distorcida – ME DEIXA SENTAR EM CIMA DO SEU PAU, SEU VIADINHO!
                Por onde a mulher passava, o caminho de sangue era criado.
                Desesperado, Josh começou a chutar a porta brutalmente, tentando arrombá-la para fugir daquele inferno o mais depressa possível. A garota estava cada vez mais próxima e ele já estava ficando sem opções.
                De repente, olhou para a janela ao lado da porta. Sem pensar, socou a vidraça da mesma, fazendo os cacos de vidro rasgar suas mãos. Josh estava fazendo de tudo para fugir, achar uma saída.
                Ele colocou as duas mãos para o lado de fora, através da janela, empurrando seu corpo para frente. Porém, a mão da garota já o havia alcançado, puxando-o para trás com uma força incontrolável, não humana: O homem caiu por sobre o chão, enquanto Rose – já em aparência petrificada – sentou em seu colo forçadamente, esfregando-se de forma sensual. O sangue manchava as vestes do homem, que tentava se desprender. Porém, era impossível.
                - ME DEIXA SAIR, FILHA DA PUTA! ME SOLTA! – ele gritou, retorcendo-se bruscamente.
                - AGORA VOCÊ VAI LAMBER, AMOR!
                De repente, o corpo possuído levantou-se com movimentos semelhantes a de marionetes, caminhou centímetros a frente. Josh conseguia enxergar a vagina da garota sangrando em seu rosto. E então, o corpo sentou brutalmente em cima da face do homem. O órgão sexual era esfregado impiedosamente entre a boca e o nariz de Josh, fazendo-o engolir sangue.
                - LAMBE, FILHO DA PUTA! LAMBE!  - o demônio gritava, aparentando estar sentindo prazer.
                Josh se retorcia, agonizando, quase se sufocando. De repente, uma de suas mãos sentiu tocar em um artefato jogado sobre o chão: Uma navalha – a mesma ao qual Rose cortara a vagina -. Rapidamente, ele a cravou sobre o estômago da criatura, fazendo-a cair.
                Desesperado, ele se levantou e, através de uma força que jamais imaginaria ter, arrombou a porta da casa, saindo, deparando-se com uma extensa floresta tomada por um nevoeiro típico de madrugada.
                Ruídos começaram a soar de dentro da cabana. Um estranho e irreconhecível linguajar também podia ser ouvido.
                Josh começou a correr floresta afora, ansioso para encontrar uma saída. Enquanto corria, lembrou-se de que deixara seu carro ao lado da cabana. Porém, era tarde demais. Ele não voltaria àquele inferno. Ainda não conseguia entender como tudo aquilo havia acontecido. O que mais estava concreto em sua mente era a salvação: Sair vivo daquele lugar. O resto ele poderia deduzir depois.
                A floresta parecia não ter fim. Os galhos das árvores batiam em seu rosto, e ele se sentia cada vez mais perdido. O nevoeiro parecia mais denso e o desespero era evidente em seus olhos lacrimejantes.
                Aos poucos, Josh podia ver luzes enfileiradas, separadas por metros de distância. Postes que sustentavam os fios de telefone e energia elétrica.  A pista que cortava a mata...
                O alívio começou a florescer em seu peito. O arfar era de satisfação.
                Ele finalmente estava a salvo.
                Ao mesmo tempo, uma forte luz vinha em direção à pista, mirando em Josh: Era um carro.
                - Graças a Deus – ele disse, arfando de felicidade.
                Rapidamente, foi para o meio da pista e fez o comum gesto de pedir carona.
                O carro correspondeu, parando e diminuindo a luz do farol.
                Josh aproximou-se do carro, sem pensar em pedir qualquer favor: Abriu a porta do mesmo e adentrou, em total desespero.
                - Por favor, me tira daqui – ele disse, quase sem fôlego.
                Não houve resposta.
                De repente, Josh olhou para cima e avistou um chaveiro pendurado, dançando sob o automóvel...
                Um chaveiro com um nome escrito:
“Josh”.
                Aquele era o seu carro.
                Ao mesmo tempo, as luzes dos postes começaram a se apagar, uma por uma, até que a escuridão tomou aquela pista.
                De repente, a voz ao seu lado disse aos sussurros:
                - Você ainda não leu aquele livro, meu amor...
                Josh, pasmo, virou lentamente sua cabeça.
                Rose o atacou com os dentes.
                De longe, podia-se avistar o sangue espirrando sobre as vidraças do automóvel, junto dos berros ensurdecedores de Josh.
                O demônio estava a solto.
                Mas até quando?


Fim.
Valdir Luciano, 2014